Crônica - Ao meu pai que ele descanse em paz - Manoel Messias Pereira

 

Ao meu pai, que ele descanse em paz

Comecei a pensar na minha vida e na minha família ainda muito criança. E sem uma noção exata das relações que cabia a cada um da família. A minha mãe sei que cuidava da casa varria fazia o almoço pela madrugada, deixava o café pronto, uma batatas cozidas ou mandiocas, para acompanhar e tudo em cima do fogão a lenha. E ambos meu pai e minha mãe iam trabalhar, recordo que tinha pouco mais de quatro ou cinco anos e ficava com a minha irmã pequena. Mamãe voltava mais cedo, meu pai ia descarregar caminhões, trabalhava na Sanbra que era chamada a empresa Sociedade Algodoeira do Noroeste Brasileiro, no Saad de algodão ou na Swift, que fabricava o óleo A Patroa e a Dona, de caroços de algodão e de amendoim era negro forte e bebedor de cachaça.

Minha mãe voltava eu já havia almoçado lá em casa tínhamos cada um eu e minha irmã uma caneca e um prato de "ferragato". Aqueles pratos eu achava uma porcaria, mas era o que tinha em casa. A casa era imensa grande com uma escadas de madeiras na entrada da casa e n entrada para o quarto e na frente havia um terreiro tijolados, onde ficava um forno de assar pão, um local onde a minha cachorra chamada Bolinha deitava, e uma parreira de uva. E num lado onde a minha mãe geralmente fazia aquele sabão de coada. Para quem não sabe pegava-se uma lata de vinte litro furava embaixo depois colocava cinzas e ia colocando água sobre aquela cinza, e recolhendo aquele caldo viscozo amarelo em que fazia-se o sabão de cinzas.

Meu pai sempre chegava a tarde, e geralmente vinha em duas situações ou bêbado ou são. Quando ele vinha de fogo geralmente jogava o caldeirão de comida trazia balas e doces, e tentava subir a escada e geralmente caia ali mesmo. Eu tentava levantar e a chamar para dentro de casa, mas era um menino  negro fraco franzino e ele um negrão não muito grande, mas pesado para que eu pudesse ter a chance de sucesso ao carregar.

Quando ele vinha são, ou melhor não bêbado ele não trazia doce, ele só questionava tudo. Era bem chato. Mas geralmente ele bebia no fim do expediente. Pois era um trabalho pesado em carregar e descarregar cargas de algodão, amendoim, e muitas vezes para descarregar mais rápido os caminhoneiros ofereciam aos chapas como eram chamados garrafas de bebidas.

Acostumei a ver de segunda a sábado meu pai ali caído. E minha mãe protestando sempre, com aqueles olhos grandes, parecia de jabuticaba sabará estourada com aquele fundo branco. A mãe era um amor, as vezes ficava brava e até descontava na gente suas frustrações humanas de mulher, de pessoa de pouco estudo de ter tido esse destino cruel muito cedo. Depois ela começou a lavar roupas de pessoas da sociedade. E ainda nos finais de semana principalmente nos sábados ali fazia alisamento de cabelo de outras mulheres negras, era com um pente de ferro. Hoje os alisamentos usam-se chapinhas. Mas na época nem tinha, isto.

E no final de semana meu pai além de bêbado enchia um pouco o saco pois ele queria ir para os bailes e queria um terno e minha mãe passava ele já não queria aquele, queria o outro e amassava tudo, e ela lá brava fazendo e refazendo tudo no ferro de brasa. Ele ia e somente chegava no domingo e caia na cozinha punha o pé para cima e dormia com a boca aberta.

Era bem teatral, um dia peguei um caneca de água e coloquei bem na boca dele e ele conseguia tomar a água mesmo de cabeça para baixo. Ele tomou na verdade uns três litros d'agua. fui para casa da minha avó com a minha mãe e a minha irmã. E fui dando  de risada. E acho que o meu pai deve ter esgotado de tanto urinar.

Depois disto lembro de meu pai bravo porque a minha irmã machucou o pé com uma rosca de gaveta, nós indo para casa de minha avó enfrentando quase seis quilômetro a pé num estrada de terra. E recordo dele vendendo o terreno que faríamos a nossa casa dando um tombo em minha mãe e abandonando definitivamente a família. Nesta época minha mãe já tinha a minha outra irmã a Maria e a Cida. E nós fomos para a casa de minha avó e ele partindo para outras famílias uma vez que ele tinha mais três famílias, uma em Ribeirão Preto e outra na mesma cidade em que morávamos São José do Rio Preto- SP e mais outra que fiquei sabendo depois de adulto. Loucura.

A vida era diferente de hoje, não havia a comunicação que tínhamos hoje. E a traição de marido e mulher talvez rolasse mais solto, penso eu hoje. Nunca li nada sobre o assunto. 

Meu pai veio falecer aqui em São José do Rio Preto -SP, no Hospital de base. Como ele bebia muito caiu na rua, foi trazido para o hospital foi recomendado que ele deixasse de beber, pois já tinha problemas de pressão muito alta e o coração.  Mas ele não obedeceu muito foi de novo para rua bebeu caiu, foi para hospital e morreu aos 58 anos de idade. E velamos o seu corpo no dia 18 de novembro de 1995. O dia em que estávamos com a plena semana de cultura do Mês da Consciência Negra. deixei o aviso com o saudoso Aristides dos Santos que naquela data estava velando o meu pai a noite mas que no dia 19 estaria em plena atividade. Avisei-o, mas  assim ele esqueceu de avisar a todos e a Secretaria Municipal de Cultura. E  disseram que a Professora  dona Acorci, falou poucas e boas ao meu respeito. Mas deixei para lá, meus sentimentos são meus sentimentos e as palavras não vou guardar nem no bolso e muito menos no coração. Palavras ficam soltas aos ventos.

No dia 19 de novembro de 1995, fizemos a investidura da foto de Pedro Amaral Campos o primeiro mandatário da cidade na Galeria dos presidente s de Câmara Municipal, de São José do Rio Preto-SP, pois o interessante era que na galeria havia todos os presidentes da Câmara Municipal, mas não havia deste que foi o primeiro presidente Coronel Amaral Campos. E o único presidente que tinha a pele negra. Para esse ato houve  discursos, a entoação dos hinos da cidade, do Brasil pela Orquestra Sinfônica que havia na época dirigida pelo Maestro Souto Cirne. E um coquetel para os presentes. E continuei neste dia as minhas atividades artísticas acabou a cerimônia neste dia eu segui para o Salão do Zé Gatão que era o nome artístico do radialista Zé Maria, onde apresentei-me, para encerrar à noite.

O rosto de meu pai lembro portanto num caixão. E essas memorias todas vividas num dia em que entreguei o trabalho da Professora Lizete Buissa  na Faculdade Dom Bosco de Monte Aprazível onde estudava. Assim fui fiel a minha vida particular e o meu compromisso social com a querida historia dos afros descendentes.

Mas cada ser humano tem uma história em relação a quem foi seu pai, assim como a sua mãe. Atribui muito o papel de pai a minha mãe que em todos os tempos ficou ao meu lado, até mesmo nos momentos difíceis, portanto foi mãe mas também pai, um pouco conselheira, um pouco palpiteira mas uma pessoa incrível e que esse ano completará em setembro cinco anos de sua morte. Outra coisa minha mãe sempre foi muito respeitada após fazer parte dos cultos afros crescer dentro deles até em 1964 montar o seu próprio terreiro. Mas a nossa vida é como um roteiro de filme. Como um crônica que eterniza-se e muitas vezes ninguém vai trazer a baila um ou outro assunto. Como sempre fui transparente e creio que cada um de nós somos portador de uma vida e nossas vidas são os instrumentos de nossos atos e sonhos.

E como criança fui que tive essas noções muito evidenciadas. E comparava que a família fosse como a árvore que tinha uma raiz, mas essas raízes alimentavam de seivas, e eu acreditava que isto fosse forças metafísicas coisas de Deus, e cada ser fosse um fruto desta vida, e via que os frutos protegiam as suas sementes, e comparava a família como esses frutos protegendo seus membros, mas há frutos como o caju em que a semente vem acima ou abaixo do fruto ressalta com importância vital a semente e mostra-se como algo prioritário, outros vegetais como o feijão resolve trazem vargens, e nelas as sementes. Se a semente deve conter sempre a ideia, os desígnios de uma nova planta obvio, que assim entendia a família. Somos frutos e guardamos em nós as semente s da vida para sempre e toda uma eternidade. Pode ser que eu estivesse errado, pode ser, mas tinha o direito de pensar. Ou não?

O interessante que não tenho se quer uma foto de meu pai. É que retratei ele na minha memória. E que assim que o  eternizei na minha história e que o senhor Messias Pereira dos anjos, o popular Saci e que ele descanse em paz, para todo o sempre.

Manoel Messias Pereira

professor 

São José do Rio Preto- SP


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