O presente
O ex-presidente da Bolívia, Sr. Evo Morales, quando governava o seu país em julho de 2015 ofereceu ao papa Francisco. Um presente bonito, cheio de significados, de histórias, de aspectos sociológicos, artísticos e de pleno respeito entre autoridades. E confesso que não consegui ver qual foi o presente que o papa levou a Evo Morales. O ex-presidente que hoje vive na Argentina o território da qual o papa nasceu.
O presente foi uma réplica, de um crucifixo, feito pelo padre jesuíta chamado Luís Espinal, um sacerdote que nasceu em 1932, tornou-se sacerdote com 30 anos e em 1968, chegou a Bolívia, realizando um trabalho humanitário com as comunidades carentes daquele país. Acabou sendo sequestrado, torturado e assassinado. Era um período em que em toda a América Latina havia o domínio do pensamento fascista e as ações provindas do imperialismo americano, que manteve algumas ações como a Operação Condor, Brother Sam e no Brasil em especial a Operação Bandeirantes, em que muitos líderes políticos de visões marxistas foram assassinados, incinerados, torturados e inclusive muitos até hoje desapareceram em suas famílias estão a espera de um corpo, de um respeito pelo Estado brasileiro, que mantém-se, distante do seu papel de mediador entre os que possuem o "Direito a propriedade" e os que possuem apenas o direito de respirar e morrer sem saúde, sem escola, sem auxílio do estado de todas as ordens, E quando tem escola é como umas estabelecidas em São José do Rio Preto em que a população pobre submetem seus filhos num calor de quarenta grau, como faz na região e um prédio que não possuem sequer um ventilador. E o serviço de limpeza é terceirizada. E saibam nem sempre a empresa responsável envia funcionários para o tal serviço virando tudo e sendo um lixão total.
Agora voltando ao presente, foi uma surpresa, pois neste momento, Evo Morales resgata toda essa história de dor, de tristeza. E de pleno respeito até mesmo com a sua "santidade", diante de um ser humano indígena, o papa Francisco, pediu perdão pelos crimes da Igreja, talvez em relação aos indígenas e aos negros. e com certeza o diálogo entre os dois chefes de estados, ou seja da Bolívia e do Vaticano. De ambos os lados tiveram motivos para chorar ou sorrir. Chorar pelo passado de dor, mas sorri pela aproximação de cristãos, com o mesmo propósitos, diferente daqueles que possibilitaram a desgraça da ditadura, da caçada aos socialistas e comunistas, como seres que devesse ser incinerados.
Mas muitos cristãos ficaram furiosos pois a cruz tinha uma foice e um martelo, símbolo dos trabalhadores do campo e da cidade, seres que geralmente estão excluídos do bem estar oferecido por este ou aquele país. Até porque os governos faz o voto, pra destruir o trabalhador desde a Grécia até no Brasil, o que se fala é retirar direitos, é mexer na aposentadoria, e a dificuldade de fazer cumprir direitos que foram no passado conquistados.
O símbolo da foice e do martelo são usados até hoje pelos partidos comunistas sim, que alicerçados na crítica ao sistema capitalista, que num contexto de uma plena luta de classe que foi bastante exposta a partir da revolução industrial, quando observou-se o surgimento dos monopólios do processo produtivo em que a classe empresarial, passou a ser dona das matérias-primas, das terras, dos meios de produção como máquinas, equipamentos e donas das forças de trabalhos dos desprovidos de bens, que ficaram a disposição para serem explorados. e até hoje não é o trabalhador que vende pelo preço que quer a sua força de trabalho, mas o mercado quem determina. E podem ver que nos classificados já vem as vagas e o preço que o patrão paga. Outro aspecto além da crítica ao sistema capitalista é a adoção da ideia do socialismo como escreveu Marx e Engels, quando fundamenta-se nas experiências dos jacobinos e nas ideias propagadas pela associação da Liga dos Justos, quando da organização da Comuna de Paris. E usam ainda Teoria Hegeliana, numa transformação em que todos os acontecimentos passam a ser frutos de um processo dialético, de um processo entre tese versus antítese que possibilite o aparecimento da síntese. e como não há nada a sombra de um modelo, o mundo continua dinâmico e diferente. Como disse Marx, citando o filósofo grego Demócrito, a água que passas, num rio hoje, não é a mesma de ontem, e assim por vez amanhã será outra diferente desta que está passando hoje. e assim por diante.
Mas a questão é que muitos cristãos foram alicerçados por outras ideias propagadas pela própria Igreja. E em relação as condições de trabalho a Igreja católica por meio do papa Leão XIII, que iniciou uma renovação doutrinária, realizando uma tentativa de estabelecendo o ensino de uma visão social na Igreja, mas o aspecto religioso por muito tempo tudo ofuscou. Mas com a presença do papa João XXIII e Paulo VI, ambos tiveram naquele papa o seu eminente precursor. Leão XIII, por mais lúcido que fosse não poderia romper subitamente com um comportamento sedimentado. E assim ele apresentou a Rerum Novarum que apresentou inúmeras limitações, condicionadas pelos interesses econômicos e pelas ideias dominantes. Por isto mesmo ele chegou a dizer que a riqueza era um dom de Deus. Mas ele entendia as dores dos trabalhadores. Essa informação leva-me a comparar com um livro escrito pelo filósofo Jose Eduardo Simões, que diz "N época que Cristo viveu a riqueza era tão somente fruto de delitos. era geradora de preguiça, lascívia e escravidão" E como poderia aquele rico entrar no Reino do céu. Outro autor chamado Henry George põe no seu livro o seguinte texto "5.Argumento da Encíclica - a propriedade privada na terra tem o apoio da opinião, deu ao mundo a paz e a tranquilidade e, assim tem sanção da lei divina" Isto não é verdade e não prova a justiça desta propriedade com o uso da pratica universal da escravidão. Ou seja a propriedade da terra como conhecemos é sim um pé de desigualdade.
O que entendemos é que a Igreja ao estabelecer a linha social concorre com os partidos comunistas, porém sabemos que desde de 1948 L'Observatore Romano publicou um decreto contra os comunistas, em que excomunga os ensinamentos materialistas considerados anti - cristãos, embora não atacasse a Igreja, os religiosos católicos entendiam aquilo como uma hostilidade a Igreja. Em 1950 houve a excomunhão do padre Jean Decet que foi nomeado pelo governo da Checoslováquia e que era comunista. Mas em abril de 1959 o papa XXIII autoriza a publicação do Dublin documento do Santo Ofício25/3, que conforme o Decreto 1949, libera os católicos e seus votos a qualquer candidato. Mas em 1962 mais precisamente em 1 de março daquele ano Fidel Castro foi excomungado por liderar a revolução socialista. E em 1966 o papa Paulo VI vai abolir o Index , que propunha proibição a certos livros. Mas há sacerdote brasileiros que diziam que não há proibição nenhuma.
O papa Francisco chegou a ser rotulado de marxista após criticar o capitalismo, devido a ineficiência das políticas pro mercado isto em 2013 e, em 2014 ele disse que os comunistas apropriou-se dos trabalhos com os pobres que era uma tarefa que estão no centro dos evangelhos. Isto faz lembrar o papa João Paulo II que em 1991 disse que "o comunismo tinha sementes de verdade", porém em 1992, ele afirmou que a Igreja rejeitava as ideologias do totalitarismo e os ateus e nisto estavam os socialistas e os comunistas.
Esses apontamento, ajudam um pouco a esclarecer tanto mal estar em Cristãos, mas é perfeitamente compreensivo de ambos lados afinal todos desejam estabelecer o caminho da plena comunhão, na universalidade, na internacionalidade, na fraternidade, na solidariedade, no respeito aos princípios de valores éticos com certeza. Desta forma o aperto de mão deve ser observado como além de um gesto de generosidade e de respeito. Mas sim de dignidade em busca de uma Paz entre os seres vivos.
Manoel Messias Pereira
cronista
Membro da Academia de Letras do Brasil -ALB
São José do Rio Preto-SP.Brasil

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