Crônica - Os 190 anos de nascimento de Antonio Conselheiro - Manoel Messias Pereira


Os 190 anos de nascimento de Antonio Conselheiro

A história hoje traz-nos a lembrança da vida de Antonio Vicentes Mendes Maciel conhecido como Antonio Conselheiro o líder de Canudos, nascido na Vila de Campo Maior hoje em Quixerambim no Ceará em 13 de março de 1830.

É uma figura que construímos em nosso imaginário como um ser humano portador do sonho de paz e de harmonia para os seus iguais. Ele filho de pequeno comerciante portanto pobre, cresceu entre a luta sangrenta de duas famílias Maciel e os Araujos. E isto não impediu que o seu pai procurasse preocupar-se com a sua formação. E colocou -o na escola de um famoso professor da região onde aprendeu o latim, francês, aritmética e geografia tendo destacado como aluno brilhante.

Não há como retirar da vida de Antonio Conselheiro a construção de todo o imaginário que temos do nordeste brasileiro. Sabemos que a Guerra de Canudos nasce entre 1896 e segue até 1897. E o imaginário nordestino traz numa mesma realidade cangaceiros, jagunços, beatos. Num nordeste que já fora numa outra oportunidade o centro político e cultural do país. Mas que neste contexto também haviam atores que viviam num teatro real de aridez, de hostilidades e sem perspectivas de vida decente.

E isto em pleno governo de Prudente de Morais, que esteve no poder de 1894 a 1898, um presidente que fazia parte da oligarquia cafeeira, cuja a dominação econômica teria seu correspondente na conquista do poder político. Considerado um ser humano cauteloso e que precisava colocar a pacificação do país e a restauração das finanças. Pois nisto Prudente herdou de seus antecessores militares uma aguda crise financeira que se originou do Encilhamento e que acelerou com as emissões no governo de Floriano Peixoto.

E em relação ao quadro popular do nordeste tínhamos jagunços a serviços dos coronéis, para defender e ampliar as suas propriedades e garantir a vitória de seus candidatos nas eleições e assassinar os adversários se preciso for. Já os cangaceiros atacavam as fazendas dos coronéis espalhando o terror entre os latifundiários.

E nisto podemo observar que a revolta dos cangaceiros estavam ligadas a uma revolta inconsciente e primitiva, contra a miséria, do que uma luta que objetivasse uma transformação social. Ou seja extravasar  a revolta empregando a violência. 

E o cenário deste palco real ainda tem a seca que em 1877 se espalha por todo o sertão, matando as criações, queimando os roçados, esturricando a terra e tornando-a imprestável a novos plantios, secando os rios, e as cacimbas, matando o ser humano e os animais, pela sede pelo êxodo maciço do sertanejo. E isto faz neste teatro surgir um novo quadro um novo cenário.

Os coronéis passam a não ter o mesmo vigor de antes, para manter a sua dependência. Enquanto que massas de nordestinos migravam para o Amazonas ou para São Paulo. E neste contexto que surge a figura de Antonio Conselheiro.

Antonio conselheiro que alguns diziam é um louco, outro dizia é um monarquista, fanático, celerado, e que vemos historiador famoso como Leôncio Basbaum classificá-lo de pessoa doente mental pessoa  perturbada. Mas o que tínhamos era um líder popular. Que conseguiu observar a carência de um povo, desgraçadamente abandonado pelo Estado brasileiro, que havia saído de uma monarquia, que tinham uma religiosidade cristã aforada e assim como até hoje há alguém que fica na ilusão de ver a volta de Jesus Cristo, há quem acreditasse na volta de D. Sebastião, ou seja o Dom sebastianismo ainda estava muito forte no contexto cultural do povo nordestino. E nisto o historiador Edmundo Moniz, viu-o como um Emiliano Zapata no Brasil, referindo-se e comparando-se com o líder revolucionário mexicano.

Nesta época Antonio Conselheiro estava com 29 anos, casado e separado, passou a levar uma vida atribulada e por dificuldades financeiras e por isso deixou o Ceará e foi rumo a Pernambuco em 1871. Começou a seguir mais pelo que a Inglaterra pedia, do que os senhores da elite cafeeira no Brasil. começou com um discurso contrário à República e tirava as mãos de obras dos fazendeiros. Passando a ser perseguido por suas ideias e por seus atos subversivos. E por ter queimado todos os editais de cobrança de impostos em praça pública.

E segundo consta foi depois disto que passou a enfrentar  trinta soldados enviados para prende-lo. Escapou dos soldados e juntamente com seus seguidores foram para Canudos-BA, onde ficaram numa fazenda abandonada e que ergueram uma cidade santa chamada de Belo Monte. Dali nasceu a ideia de uma sociedade igualitária, um refugio de desprotegidos e espoliados pelo sistema. E nisto recebeu os errantes e outros perseguidos. Veio gente de toda a parte do nordeste chegando a ter 5.000 (cinco mil casas) e aproximadamente 30.000 (trinta mil) pessoas. Essa sociedade igualitária gerou revolta da elite brasileira, A igreja embora Antonio Conselheiro nunca tenha atacada, começou a condenar o beato, pois a própria Igreja perdia seus fiéis.

Na literatura aprendemos que Antonio Conselheiro iniciou a sua atividade no Nordeste fazendo muros nos cemitérios e dali construindo pequenas igrejas e juntando pessoas para o terço e ele começou a fazer a suas pregações. Na construção de suas igreja Conselheiro comprou madeiras, mas o juíz de Juazeiro resolveu embargar e não permitir que fosse entregue o material comprado o que levou o beato a ameaçar ir até o Juazeiro com seus homens buscar a madeira. Diante deste contexto o governador da Bahia Luiz Viana, solicitou um tropa com cem soldados para Canudos. As tropas foram surpreendidas pela tática de guerrilhas  e emboscadas dos canudenses e na luta corpo a corpo. E para resolver o problema seguiu mais seiscentos soldados mas que teve o mesmo fim foram derrotados pelos canudenses. E isto feriu a honra dos militares e do exercito brasileiro.

No Rio de janeiro, a luta política cresceu entre florianistas que desejava afastar o presidente Prudente de Morais. Que acabou licenciado por um questão de saúde. E o vice Manoel Vitorino resolveu mandar 1200 homens contra canudos, numa ofensiva que penetrou na cidade, mas também foram surpreendidos pela guerrilha de Canudos e bateram retiradas. Tendo morrido o comandante das tropas e seus principais auxiliares. As armas e a munição abandonadas na fuga passaram a ser usadas pelos guerrilheiros de Canudos.

Prudente de Morais reassumiu o governo e determinou que o Ministro da Guerra Marechal Bittencourt assumisse o controle das operações militares e o General Arthur Oscar foi designado comandante da quarta expedição e em  5 outubro de 1897 a ordem era destruir Canudos, num intenso bombardeio de canhões. 

Canudos não se rendeu e resistiu até o seu esgotamento total, no entardecer deste dia caíram os seus últimos defensores. Eram 4 pessoas apenas um velho, dois homens feitos e uma criança e contra eles raivosos 5 mil soldados.

Li no trabalho do professor Antenor Antonio Gonçalves que Kierkegaard dizia que o julgamento do mundo não é moral é estético, admirando tudo o que tem, poder, astúcia e governo" Assim como Kafka dissecou o interior dos escritórios burocráticos a fortaleza dos medíocres que decidem sobre nós. Camões exaltou as armas e os varões assinalados para além das praias lusitanas, Baudelaire pintou a multidão anônima em que os homens comuns feitos espantalhos pelas ruas de Paris. Humilhados e ofendidos de Dostoievski, Os miseráveis de Victor Hugo, não sofrem somente as injustiças de uma classe social particular da sociedade, são vitima das desumanidades de todos os tempos. Enquanto isso aqui no Brasil eu pego o livro de Euclides da Cunha e nele consta "Que os sertanejo é antes de tudo um forte" E o conceito de negros, de mestiços de uma sub-raça, de uma raça inferior como desejam os positivistas brasileiros, demostram que é totalmente inadequada e errônea. E que existiu foi somente o abandono o descaso do seres humanos que habitavam os poderes constituídos, sem a minima sensibilidade como arte e com uma politica capitalista, que anula qualquer sentimento humano de razão, de respeito.

E Antonio Vicente Maciel ou Antonio Conselheiro é visto por aquilo que construiu um olhar, um respeito, uma atenção voltada para quem precisava de amparo, uma vez que na senda do capital, todos esses valores são apenas dirigidos para uma classe dominantes e o processo de exclusão social como lógica racional numa melancolia encenada e vivida tristemente pelo povo que mais acredita que o Estado deveria ser o equilíbrio entre os desiguais politica e economicamente. 


Manoel Messias Pereira

professor de história, cronista e poeta
Membro da Academia de Letras do Brasil -ALB -São José do Rio Preto-SP.
Membro do Coletivo Minervino de Oliveira São José do Rio Preto-SP






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