Cronica - O vira-latas pescador - Vicente Serroni

#CRÔNICA DO DIA
O vira-latas pescador

Sentei-me em uma das pedras que por vezes recebia carinho das águas do riozinho Camburi. A paisagem à minha frente era de rara beleza, contemplava tudo chegando quase a uma meditação que foi embora quando vi na outra margem do rio um cachorro vira-latas ziguezagueando como que quisesse pegar alguma coisa. Não sei porque, esta cena remeteu-me à música poética "O otro lado del rio", do compositor argentino Jorge Drexler, vencedora do Grammy Latino como melhor canção e do Oscar, como Melhor Canção Original, salvo engano, isto em 2004.

Estava a cantarolar um trechinho da música quando percebi o cão nadando vagarosamente em direção à margem do rio onde eu me encontrava. O animal chegou, chacoalhou o corpo para se secar e depois disso voltou para as águas rasas do Camburi, tentando abocanhar alguns peixinhos que por ali nadavam. Astuto, ele procurava espantar os peixes para as pedras onde ficava mais fácil para ele "fisgar" algum. Ia de um lugar para outro, sempre observando a água, às vezes parava por minutos, abanando o rabo e espreitando sua presa. Com umasuas patas remexia a terra para desalojar algum peixe do esconderijo entre as pedras.
Com meu celular procurei fazer algumas filmagens do vira-latas pescador, não sou nenhum Sérgio Neves, meu amigo que é um expert com uma câmera na mão; nem tampouco um Almodóvar, mas acho que consegui algumas tomadas interessantes. Durante esse tempo que acompanhei a pescaria do cachorro percebi que ele não obteve sucesso nessa sua empreitada. Não pescou nada o vira-latas. Pensei comigo, o pobre animal deve estar com fome, por isso abandonei o set de filmagem e fui buscar alguma coisa para ele comer. Ele até aceitou o que eu trouxe, mas depois de lamber os beiços voltou para a sua caçada aos fugitivos peixinhos.
Intrigado com tamanha persistência, fui até alguns ribeirinhos que estavam por ali para saber mais sobre o vira-latas pescador. Não consegui muita coisa, apenas que era um cão sem dono que todo dia aparecia no rio para tentar pegar algum peixe. Curioso, quis saber se eles chegaram a de ver o cachorro pescar algum, no que um deles me respondeu: "Se pegou eu não sei, mas ele é persistente, não desanima nunca, às vezes passa o dia inteiro atrás desses peixes".
Antes de ir chamei pelo cachorro que me atendeu, fiz um carinho nele e pensei comigo mesmo, "um bom exemplo para a gente, perseverar sempre; desistir jamais".


Vicente Serroni

jornalista, cronista
São José do Rio Preto-SP.Brasil
Membro da Academia de Letras do Brasil -ALB

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