Crônica - Mario Schemberg para todo o presente e para o eterno Infinito - Manoel Messias Pereira


Mario Schemberg para todo o presente e para o eterno Infinito

Em 10 de novembro de 1990, falece o camarada Mario Schemberg, considerado o maior físico teórico do Brasil. Com uma invejável carreira academica e uma de luta política, com um olhar aguçado em relação as questões politicas e econômicas do Brasil, luta  iniciado essa luta com a campanha o "Petróleo é nosso", pela defesa dos minérios nucleares do país e esteve contra o acordo nuclear Brasil e Alemanha.  Foi deputado estadual no Estado de São Paulo por dois mandatos, revelou-se excelente orador, ao lado do líder  Caio Prado Jr, foi notável bancada do Partido Comunista Brasileiro -PCB, agremiação partidária na qual fez parte do Comitê Central CC, e por ser comunista foi preso político. E a história de Schemberg cabe a todos os brasileiro uma séria reflexão.

Ele nasce no Recife capital do Pernambuco,em 02 de julho de 1914, provindo de uma família judaíca. Aqui em São Paulo estudou e trabalhou na Escola Politécnica. Inaugurou a cadeira de mecânica celeste e Superior do departamento de Física da FFCL atual Instituto de Física da USP, Membro do Instituto Advanced Studies de Princepton e do Observatório Astronômico  de Yerles. Em Bruxelas trabalhou com raios cósmicos e mecânica estática. Criou o laboratório de estudos Sólido da USP, instalou o primeiro computador da Universidade, criou o Curso de computação.  Trabalhou com mecânica quântica, termodinâmica e astrofísica. dedicou à física tirava fotos preparava catálogos e estudava ciência Oriental. Na sua carreira universitária tem o chamado processo Urca o que permitiu entender o colapso das estrelas super-novas. Publicou mais de uma centena de trabalhos científicos  em física teórica,em física experimental, em astrofísica, mecânica estática, mecânica quântica de campo, fundamento de física, alem de escrever muitos trabalhos de matemática.

Esse processo da Urca, foi uma das suas principais descobertas e isto ele estava nos Estados Unidos da América a convite do astrofísico russo George Gamow.

E a sua atividade política paralela a atividade acadêmica, foi eleito em 1946, pelo PCB a deputado Constituinte do Estado de São Paulo. Revelando-se um orador invejável  e chegou por diversas vezes inverter a posição dominante da bancada. Em 1947 sob a liderança do economista Caio Prado Jr. a bancada aprovou o Artigo 123 da Constituição do Estado de São Paulo instituindo o fundo de amparo à pesquisa e seu desenvolvimento científico e tecnológico. E esse projeto levou mais tarde a concepção da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo a Fapesp. E em 1948 foi cassado e vítima da perseguição na Universidade juntamente com outros membros da bancada comunista liderada por Caio Prado Jr.

Em 1962 foi novamente eleito agora pelo Partido Trabalhista ;brasileiro -PTB, porém teve o seu diploma impedido, após apontarem ele como comunista e membro do PCB  não membro do PTB. E com o golpe civil e militar implementado no Brasil em 1964, com as Operações Broter Sam, Condor e Bandeirantes, Mario Shemberg foi detido por sete dias permanecendo confinado no DOPS por mais dois meses. Depois em 1965 foi preso e acusado por sua atuação política na Universidade. Seu mandato na prisão foi revogado devido a pressão internacional da comunidade científica. 

Com o Ato Institucional n.5, considerado o mais duro do regime militar, ocorrido em 1968. Tivemos em 1969 Schemberg sendo aposentado compulsório da Universidade. E na década de 70 sofreu muitas perseguições e até ameaças física, o que foi revertido com a abertura política portanto dez anos mais tarde.

Era um hábil crítico de arte e numa carta escrita a Clarice Lispector em 1970 ele escreve "Minha situação geral modificou bastante, em consequência do isolamento em que passei a viver, como resultado de minha aposentadoria e da impossibilidade de exercer a critica militante. Foi um desafio tremeno, mas creio que pude reagir de modo mais crítico não só retomando com maior energia as pesquisas anteriores sobre a teoria da gravitação e o problema das relações entre a física e a geometria,como também os estudos filosóficos mais sistemáticos. Publiquei três trabalhos e um pensamento sobre a arte. Agora estou escrevendo um pequeno ensaio sobre a crise atual das artes plásticas, que talvez seja o ponto de partida para um ensaio mais longo"

Sobre a vida pessoal sei que a sua primeira esposa foi a uma das ex-esposa de Oswald de Andrade a Sra. Julieta Bárbara Guerrini e mãe de sua única filha Ana Clara Guerrini Schemberg e já sua segunda esposa era artista plástica a Sra. Lourdes Cedran, talvez isto explique a sua critica as artes plásticas.

Em sua memória hoje há nome de escolas,  como nome de um colégio,  de uma  faculdade, e talvez de ruas praças. E com certeza uma homenagem de enorme significação pelo que ele foi como ser humano pensante de uma sociedade que lentamente desenvolve no Brasil.

Em 1990 no dia 10 de novembro as principais matérias dos jornais eram essas o "Governo volta a ouvir os empresários," Ou Engenharia genética faz rato humanizado" "O Brasil domina material para o chip do Século XXI, ou a "Ciência besbilhota conversa de células". 

E Neste dia aos 76 anos de vida ele deixava o mundo físico para eternizar-se na história. No outro dia a mediocridade da mídia, da imprensa brasileira trazia no contexto das matérias jornalísticas títulos como esses "A maioria acha a vida pior depois do Plano Collor", "Os Estados Unidos aumentaram pressão sobre o Golfo", Gorbachev busca apoio para a sua Perestroika", Túnel sob o Canal da Mancha como obra do Século. Nenhuma imprensa conseguiu trazer o impacto da morte do cientísta Mario Schemberg na estrutura da ciência e tecnologia do mundo.Mesmo sendo ele a maior expressão científica do país.

 Enquanto todas essas bobagens eram descritas nos principais jornais do pais,    a família de Mario Schemberg, chorava junto ao caixão. E os membros do Partido Comunista Brasileiros de punho cerrados gritavam Schemberg -presente, presente, presente. E aquele homem sensível pela linguagem do silêncio, na  contemplação do mundo que via além do próprio  além adormecia para todo presente e para o eterno infinito.


Manoel Messias Pereira

professor de História,cronista e poeta
Membro da Academia de Letras do Brasil -ALB
Membro do Coletivo Minervino de Oliveira


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